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Renan Calheiros: a redenção da política brasileira

Rodrigo Cintra

Caros amigos,
A nossa secção Lengua Invitada evolui para um portal Trans-Ibérico, e estamos felizes de apresentar-vos o nosso primeiro artigo em português do nosso parceiro "Revista Autor"…
Nuestro sección Lengua Invitada evolucionan hacia un pórtico Trans-Ibérico, y somos felices introducir hoy nuestro primer artículo en portugués de nuestro socio "Revista Autor" – Enjoy !

  • Renan foi absolvido… e daí? A sessão do Senado foi fechada, escondendo da nação os interesses particulares de vários senadores… e daí? Deputados saíram aos murros com seguranças do Senado… e daí? Afinal, onde está a população brasileira quando a política do país mostra sua essência?
  • Basicamente podemos separar a opinião pública em dois blocos. Num primeiro bloco estão as pessoas cujo cotidiano se sobrepõem a qualquer discussão política, a qualquer preocupação com um projeto de país. São os milhões de miseráveis que não fazem mais do que agradecer e apoiar um governo que lhes dá comida e um pouco de atenção. Não há dúvidas de que falamos de esmolas políticas, de pequenas benesses voltadas à manutenção do silêncio de uma nação já desanimada.

    De outro lado está o bloco das elites, das pessoas que ainda teimavam em encontrar na política uma forma de mudar as coisas. São pessoas que escreveram cartas para jornais e revistas, enviaram mensagens para blogs, mostrando sua indignação com o que está ocorrendo. Aos poucos, essas pessoas também começam a se calar. Indignação agora começa a ser substituída por descaso.

    Por que uns e outros se preocupariam com a política? Democracia? Ter a chance de votar de tempos em tempos não é democracia. Democracia é participação, é proximidade entre governantes e governados, é ter acesso a canais de acesso ao poder público. No momento em que deputados (que, segundo reza a teoria, seriam os representantes diretos da opinião pública) são impedidos de entrar no Senado, alguma coisa está realmente errada. Note-se que não foram impedidos por questões de regimento interno das casas, mas por pura violência.

    A política brasileira poucas vezes apresentou-se digna do país, porém agora atinge níveis alarmantes de desrespeito e, sobretudo, deslocamento com relação ao resto do povo. Nas ruas é praticamente impossível encontrar alguém que defenda a permanência do senador Renan Calheiros na casa. Ainda assim, Renan declara que chaga “com a humildade que sempre tive com os companheiros. Ontem, chamei todos à conciliação."

    Certamente conciliação é o melhor termo, mas não para o Brasil. Há tempos o sistema político brasileiro está sangrando. Câmara, Senado, Presidência, Judiciário, em todos os níveis e divisões do poder podemos encontrar abundantes casos de corrupção.  Sem a aclamada conciliação, os políticos tendem a se enfraquecer cada vez mais, a perder controle sobre suas ações. Assim, prevalece a lógica de que é melhor abandonar definitivamente qualquer contato com a realidade da população e se focar na estabilidade do esquema de governo.

    Interessante a posição do presidente Lula sobre tudo isso, quando diz que temos que “nos habituar” com as decisões que nos desagradam. Certamente é esse o comportamento que esperam de nós. Reclamar, cobrar, exigir consideração e respeito devem estar subordinados às maracutaias políticas – desde que os procedimentos sejam seguidos, tudo é válido!

    Lula não pára só na aceitação de tudo, vai além. "Eu acho que o Senado resolveu o problema ontem. Para um presidente da República, o que interessa é que o Senado volte a funcionar com normalidade, nós temos CPMF, reforma tributária e coisas de interesse do povo brasileiro. É isso que interessa".

    Qual problema foi resolvido senhor presidente? O da corrupção e do descaso com relação aos brasileiros ou os seus e de todos os demais políticos que estão atolados na corrupção? De que normalidade estamos falando? O presidente do Senado está sob várias acusações sérias, continua na presidência, comandando um importante braço do governo brasileiro, e estamos caminhando para a normalidade novamente?

    CPMF e interesse brasileiro, sem dúvida senhor presidente, tem uma relação, mas não como o senhor defende. O interesse brasileiro é acabar com a CPMF e não renová-la. Basta não fazer nada que ela acaba. Basta o congresso se calar sobre esse assunto que o interesse brasileiro será observado.

    Mas, no fundo, para que debater tudo isso? Nossos governantes sabem o que devem fazer e continuarão por seus próprios caminhos, construindo uma nação com migalhas e desrespeito. Senhores políticos, o mínimo que posso fazer agora é agradecer a vocês pelo país que estão me oferecendo e pelo país que estão preparando para meus filhos. Um país no qual a desigualdade não mais será entendida como algo ruim, mas apenas como algo dado, com o qual deverei me habituar. Corrupção não será mais entendida como uma forma incorreta de fazer política, mas como o mecanismo mais adequado para manter a normalidade da política. Enfim, um país no qual a promessa de futuro não seja nunca mais animadora do que a já ruim condição do presente.